Goiás tem ‘fome’ de creches

24 de agosto de 2026 às 14:42

Falta de estabelecimentos públicos deixa na fila de espera mais de 31 mil crianças entre 0 e 3 anos; TCE-GO calcula em mais de R$ 1,5 bilhão investimento necessário para zerar déficit de unidades

É difícil mensurar o valor de uma cobertura adequada de creches para as mães solo. Mas é possível: basta mencionar que, de acordo com números da Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD) Contínua para Goiás, 50% dos lares no estado são chefiados por mulheres. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), 63,5% delas encontram-se ocupadas, formal ou informalmente: são 235 goianas que exercem algum tipo de atividade laboral: 13,5% delas o fazem sem qualquer rede de apoio.

A importância da creche como instituição vital para essas famílias pode ainda ser mensurada pela radiografia estatística das mães solo desocupadas: 29% das chefes de família monoparentais não conseguem sequer buscar uma vaga por uma razão principal: não conseguir onde deixar os filhos.

“São 108 mil mulheres goianas que cuidam dos seus lares sem qualquer rede de apoio, que gostariam de arranhar um trabalho e conferir maior dignidade a seus filhos, mas não reúnem condições de sequer procurar uma ocupação porque não têm com quem deixar os filhos, grande parte deles recém-nascidos e crianças de até três anos”, relata a jornalista Arianne Cândido, candidata a deputada estadual pelo União Brasil.

Para Arianne, o drama social é confirmado pelo déficit de vagas em Goiás. No estado, 29% das crianças entre 0 e 3 anos têm cobertura de creche. De acordo com o Panorama de Dados Educacionais, com base no banco de dados do Censo Escolar 2025, há uma fila de espera em Goiás de mais de 31 mil crianças nessa faixa etária. O Plano Nacional de Educação (Plano Nacional de Educação) considera ideal uma cobertura de creches de 50% da população infantil em fase de primeira infância.

Para chegar a essa meta, o Tribunal de Contas de Goiás (TCE-GO), em cálculo recente, estima em R$ 1,53 bilhão o montante de investimento público necessário em Goiás para que o estado atinja a meta estabelecida no PNE. “De acordo com o TCE, esse volume de recursos possibilitaria que Goiás chegasse à meta, com uma oferta de creches de 275 novas unidades, que seriam acrescentadas às 54 existentes”, explica Arianne Cândido.

A candidata fala em uma necessidade de uma cruzada regional para o alcance desse objetivo. “Imagine o que significaria para uma mãe solo de baixa renda ou vulnerável ter essa rede de apoio oferecida pelo Poder Público. É preciso ser mãe para entender em que medida essa realização beneficiaria um grande número de mulheres”, frisa.

Entretanto, creches plenamente adaptadas às necessidades reais das mães solo em Goiás não podem apenas atender a critérios numéricos. “Não pode ser uma creche qualquer. Ela precisa estar aparelhada para se encaixar nas necessidades da rotina de trabalho dessa mãe solo e, ao mesmo tempo, oferecer serviços de qualidade a essa criança, que vai frequentar aquele espaço em momentos determinantes da sua formação”, salienta Arianne.

Estrutura

A candidata sugere uma estrutura completa, em um complexo arranjo institucional e de confluência de esforços. “O modelo em período integral tem de ser incorporado, naturalmente, mas com a possibilidade de plantão noturno, por exemplo, entre as 20 horas e as 22 horas, para cobrir contingências e imprevisibilidades na rotina diária das mães”, observa. A possibilidade de funcionamento nas férias, em formato colônia, com revezamento de servidores, também é algo mencionado pela postulante a parlamentar.

Os serviços teriam de se estender para uma rede de apoio mais ampla que a tradicional oferta do trinômio merenda-educação-assistência social. “No modelo que idealizamos, seria interessante incluir serviços psicológicos tanto para o público infantil quanto para as mães solo. A creche também precisa estar capacitada a oferecer serviços de prevenção, ambulatorial e vacinação, com enfermeiras ou técnicas em enfermagem com vínculo permanente”, descreve Arianne.

Para Cândido, uma política pública com essa envergadura teria por resultado o fato de dotar Goiás com um dos mais amplos e eficientes paradigmas de assistência social. “Esse sistema teria repercussões econômicas inegáveis. Mães solo mais tranquilas em sua rotina de trabalho, sabendo que seus filhos estão bem cuidados, seguros e sendo bem preparados para a vida escolar se tornaram uma força de trabalho empoderada, com um potencial que com certeza seria benéfico para todos”, conclui.